999 Palavras numa só

Aqui se começa uma última estrofe sem fim
Último suspiro, derramada, em tinta cor de sangue
De um amor à queima-roupa, que se escapa de mim
O tempo que me mata, verbo que arrebata e me deixa exangue

Sim, aqui se escrevem as derradeiras linhas
Nua voz de amor que se fez cor e luz, dos olhos meus
Que respirou, sonhou, sentiu, viveu, além de um adeus
Tatuado na sub-pele e nas linhas, destas minhas mãos sozinhas

Novecentas e noventa e nove palavras, numa só, um tudo a dizer
Tantas linhas, meus sorrisos e outros passos, nua viagem
Entrelinhas tantas, noites e dias, escritas na geografia de cada imagem

Página que se vira, esta, dos meus dias, do meu viver
Onde me despi de corpo e de alma, e me fiz contador
Entre trovas, prosas e espinhos de rosas, escritos em nome do amor


Sim, foram longos os dias que se contaram, fiz-me maior na viagem
Naveguei na tinta dos olhos, onde os vossos foram minha âncora e margem
Onde aportei em abraços, onde dancei os compassos, melodia nas entrelinhas que recito
Na dança das palavras, na voz do silêncio, que se fez luz, no fio de um grito

Escorreram entre os dedos, sem medos, meus sonhos e segredos
Neste trapézio sem rede, fui mergulho no céu, foi teu véu, meu enredo
Onde escrevi as pedras da calçada, um amor de madrugada, na palavra das veias de fogo
A cada entardecer e alvor dos dias, em vogais, consoantes fugidias, como fichas deste jogo

E este amor à queima-roupa, que abracei de peito aberto
É a voz dos meus passos, caminho de que sou caminhante
Festim nu dos sentidos, despidos, proibidos, onde nada mais é deserto

Este amor que me fez viver, que me reensinou a sonhar
É abraço de eternidade num vento, nómada, errante
Quando o tudo o mais é menos que menos, e o nada é tudo, na ousadia de amar


Sim, é a última valsa, que aqui se dança
Resquícios de um céu tatuado, nos meus olhos de criança
Despojos de um ensaio, que me partem do peito, neste rio carmesim
Entrelinhas, nu desmaio, pelas mãos de anjos negros, querubins

Escrevem-se estes últimos suspiros, no papiro do vento
Em passos de dança de mar, no areal do meu alento
Onde amanheço baía, bebendo nos olhos o teu sabor
Tatuando nas linhas nuas das mãos tuas, um saber dizer amor

Foge o tempo, o verbo, de ser teu consorte
Na arte por sorte, amar-te meu norte, e fugir aos braços da Morte
Nas palavras que guardo assim, em ti, em mim, num sopro despido

Palavras que se escapam, que se findam, num verso aqui perdido
Por esta morte que me aguarda, que me amarra e agarra
Nesta trova, que me geme, num último trinar da guitarra


Partem as últimas pétalas, foi-se o lume, do perfume, voz agora muda
Palavra tatuada, silhueta ancorada, em asas de uma alma desnuda
Onde escrevi sorrisos nos olhos, e a boca foi lágrima por verter
Na simétrica assimetria, que vivi a cada dia, e aqui não fiz esquecer

Foi-se a voz, partiu, ao sabor da “viagem” de Ary dos Santos, nas linhas das mãos vazias
E todas palavras que se contassem, todas mesmo que se escrevessem, perder-se-iam, no nu mundo
Que se reinventa a cada segundo, quando se descobre que mora no fundo de um olhar profundo,
Fora-se o verbo, pois todas as palavras, seriam latitude dos passos dados, das viagens minhas e suas geografias

E nas asas do vento, deixo o sabor de um adeus, novos céus num abraço
Descobrindo este novo viver, nova página, novos passos
Além margens dos lábios, tingidos de ti, cingidos horizontes

Encontrando-me num amanhecer submerso
Na tinta que se perde e escreve um último verso
Acendendo os meus olhos nos teus, que foram dos céus, minhas pontes


Acaba-se aqui este capítulo
Perdoa-me as letras, cada verbo tão pobre
A ousadia de ousar escrever poesia, a voz de um sentir nobre
Onde o amor que não soube dizer foi a tinta, foi alma e título

Chegou ao fim, a viagem dos meus versos, por teu nome, mulher entre as mulheres
Bebo o sopro murmurado dos teus olhos, como gota de cristal de orvalho, de tantos amanheceres
E parto nas palavras, rumo ao rumo que rumo, onde me esfumo, nessa nua melodia inacabada
Porque o amor é sentir, é palavra que em mim, não tem fim, e que trago, como afago na alma tatuada

Aqui acontece este equinócio de mim, o meu ocaso
Que amanheceu no encontro dos desencontros, onde nada é acaso
Esculpido das sílabas que nos olhos ousei escrever

Pois viver sem amar, ousar, não seria em mim, viver
E como grito, aqui, escrito, de alma nua, sem pudor
Deixo nesta última estrofe, um meu manifesto, em nome do amor

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Aloha mundo.

Sim, a morte (mais que) anunciada chegou.
Assim é a morte, e a minha, foi da tinta, com que escrevia a alma.

E olho, com desalento, e descubro que o vento, amordaçou-me ao longo dos dias a voz, e jamais consegui dizer amor…como o amor sabe ser… como o amor é.
Não o soube dizer… assim como hoje, olho e vejo vazias as minhas palavras…as de hoje, e de tantos dias mais.

Sim, foi por amor que escrevi…foi amor que escrevi…

On May 14 2008 Edit






999words

male - 13/02
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Gaia, Porto, Portugal




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